sábado, 24 de abril de 2010

Uma breve novela

Após sair batendo a porta, R. desceu as escadas do prédio sem nem ao menos lembrar que estava no décimo segundo andar e que poderia ter usado o elevador.
Sua cabeça doia por demais. Na boca tinha um gosto adistringente. Pela retina via um video clipe infinito. O zunido no ouvido era interminável. Jamais experimentara uma sensação como essa. Adrenalina e ansiedade em doses cavalares. Mas, poucas horas antes estava tão diferente.
São Paulo, 16h45. R. apresenta seu seminário sobre poesia intimista do século XIX. Fala da influência de Schopenhauer e faz pontes de contato com Hegel e o existencialismo de Heidegger. A plateia fica ligada. Parecem estar ali reunidos o supra sumo da futura intelectualidade paulistana.
Neste mesmo instante. Um grupo de amigos reúne-se para tomar uma cerveja. Que se foda poesia intimista e filosofos alemães. Querem ganhar dinheiro vendendo pílulas de um pseudo conhecimento. Coisa típica de uspianos e afins, que disfarçadamente se colocam numa torre de marfim. Levam a ferro e fogo o que disse Sartre: "O inferno são os outros".
Itabuna, 1947. I. nasce com ajuda da parideira-curandeira do vilarejo de Algodão. Era apenas mais uma entre onze filhos de S. e D.
Itaboraí, 1950. I. vem ao mundo com a ajuda de G., que parecia saber e fazer de tudo sem que ninguém pudesse dar um palite se quer.
(continua...)

Nenhum comentário: