terça-feira, 9 de março de 2010

A metamorfose

A metamorfose

Nasceu. E em tempos de ditadura, por si só isto já seria motivo de grande alegria e comemoração para seus pais. De início um susto, uma vez que não chorou, mas um tapa do médico aliviou o susto da mãe ao ver seu filho sujo e roxo, abrir a boca e fazer o mundo ouvir que estava por aqui.
Na primeira noite sonhou. Sonhou também na segunda, na terceira e desde então não parou mais. De tanto sentir que o filho sonhava, a mãe também sonhou e quando acordou havia colocado no mundo mais duas meninas.
O primeiro grande sonho de que ele se lembra acabou no Sarriá em 1982. Como tantos outros meninos, queria jogar futebol. Depois, por achar engraçado ouvir com o estetoscópio do médico seu próprio coração, já tinha outra vontade, que acabou no fatídico dia em que um corte no pé o fez sangrar e abandonar a medicina. O tempo passou. Muitas outras vontades vieram: a música, ciência, novamente o futebol, quem sabe o cinema (achava bonita a estátua do cara careca banhado em ouro), mas foi um acidente que o fez mudar por completo o mundo que o cercava. Maldito o dia em que inventou de entrar na biblioteca da escola. Uma cadeira fora do lugar. Um garoto desatento. Um tropeço. A batida da cabeça na estante de livros. Pronto, estava feita a desgraça. O menino que sonhava em ser jogador de futebol, médico ou ganhar o Oscar, ganhou um galo na cabeça e um outro e derradeiro sonho, quando pegou o livro com nome de doença e com o nome de quem o escreveu mais estranho ainda, que falava do cara que virou inseto e fez aquele garoto, trinta anos depois, querer ser escritor.

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